sábado, 22 de dezembro de 2012

Subir a pulso e ficar só!

Tudo na vida de Joaquina a levaria para uma existência normal. Normal porque igual a tantas outras. Nascida na Costa da Caparica, filha de pescador e de peixeira, cedo se aventurou nos mercados municipais, onde a mãe vendia o que o pai havia recolhido.
Foi aí que aprendeu o jeito de mercar, de escolher aqueles com quem se podia negociar. A deterioração da saúde materna havia de leva-la a ocupar na praça o lugar deixado pela progenitora.
Esperta e também afoita, rapidamente se deu conta que o mercadejar individual dava menos do que falar e discutir preços e condições com os grandes revendedores. Treinou-se nesta arte e nunca teve pejo de baixar o seu preço para ganhar aos colegas o cliente aprazado. Foi assim subindo os degraus da vida e a dada altura já era ela a intermediária. Entre os que continuavam como ela e os grandes compradores. O corpo havia de ajuda-la a simplificar alguns negócios. E a conhecer outro meio.
Quando a mãe morreu já deixara a banca e tinha uma espécie de escritório na pequena casa onde viviam. Esta e aquele foram crescendo e uma década passada sobre a partida materna, Joaquina já vivia numa moradia, tinha carro e gente que trabalhava para ela.
Com quarenta anos possuía tudo o que sonhara. Só não tinha amor nem tempo para o encontrar. Há vidas assim, que não conseguem encaixar os dois pratos da balança do sucesso. Deixou, por isso, de pensar no amor e continuou a enriquecer e a vingar-se, afinal, do que nem a mãe nem a menina que fora, haviam tido.
Hoje tem setenta anos e uma vida centrada na riqueza. Amigos apenas possui os que dela dependem. O que é a mais trágica forma de solidão.
Joaquina morreu sozinha numa noite de consoada. Sem ninguém a seu lado. Sem herdeiros, havia de ser o Estado a ficar-lhe com tudo o que na vida havia ganho...

Helena

domingo, 9 de dezembro de 2012

A verdade da mentira

Sempre foste mentiroso. Mas eu sempre soube disso e amparei o teu jogo. Hoje pergunto-me porquê e não sei qual das respostas que ensaio é válida. Seria porque o sexo era bom? Creio que não, pelo que, depois de ti, aprendi. Seria porque eras o mais terno dos homens que conheci? Duvido, porque atrás dessa ternura vinha sempre um pedido, uma solicitação interesseira. Seria porque me davas a mão, quando os outros olhavam para nós? Improvável, porque quando estávamos sós esses dedos nem os meus tocavam. Seria porque eras a minha droga, a minha vitamina, a razão pela qual eu existia? Talvez. É muito possível que essa fosse a primeira das causas.
Seriam, de certo, muitas as razões por que eu te amava. Razões frágeis, falsas, destrutivas. Mas, nem por isso, menos reais. Ou, apesar disso, suficientemente ponderáveis para que eu não fosse capaz de te deixar, na certeza de que se o fizesse, não sobreviveria.
Contudo, um dia, foste capaz de falar verdade. De me avisar. De me deixar. E eu, tonta, habituada que estava à mentira do nosso amor, não te acreditei. Esperei, na certeza de que haverias de voltar. Terias que o fazer porque não sabias viver com a verdade. Mais cedo ou mais tarde. Não importava. Havias de voltar, eu tinha de confiar que assim seria. Só não sabia quando...
Afinal não voltaste. Para mim. Voltaste para quem querias voltar. E eu, idiota, ainda me recusei a acreditar. Esquecendo que a vida não se escreve. Apenas acontece. Para alguns. Porque, para outros, ela apenas se limita a passar...

HSC

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Diálogo provável

Joana sabia que um dia Marta poderia vir a saber. Não seria a primeira nem seria a última. Mas era uma mulher pragmática e não estava para tomar decisões precipitadas.
Afinal se o António não se divorciava porque havia ela de faze-lo? Há muito que aprendera que mais vale ter um pássaro na mão do que ter dois a voar. Mas o que ela não esperava foi que ele lhe comunicasse que deveriam ambos tomar uma decisão. E que essa decisão fosse o resultado do diálogo que se segue:
- Temos de tomar uma decisão agora, Joana.
- Mas que decisão?
- A de nos divorciarmos
- Mas porquê agora?
- Porque andamos nesta situação há cinco anos.
- Está bem. Mas deve haver uma razão para ser agora que levantas o problema.
- Estou farto...
- Mas ontem não estavas. O que é que mudou em 24 horas?
- Mudou tudo.
- O que é o tudo?
- É a Marta ter decidido dizer-me há uma hora que se quer separar de mim.
- Ah! Agora já percebo.
- Ainda bem querida. Eu sabia que tu ias compreender. Afinal sempre desejaste isto, não é verdade?

HSC

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Fado

A Rosa era fadista e como está na sina da canção, a sua vida não foi feliz.
"Filha de pai desconhecido", era o que o seu registo contava. Mas a mãe, antes de morrer, disse-lhe quem era o progenitor que, à época do nascimento, estava casado. Por isso Adozinda jamais lhe dera conhecimento da bastarda. Nem teria podido, já que o putativo responsável da gravidez, mal soubera dela, pôs-se ao fresco.
Os anos correram. Rosa tomou nome e apelido. E também profissão. Passou a ser Rosa Costa, fadista consagrada daqueles que amavam a canção nacional e as touradas. Com isso veio o amor eventual, o amor passageiro. Aquele que se toma por uma noite, ou por uma semana, e que é passe ou salvo conduto de entrada nos luxuosos hotéis onde este tipo de histórias se costuma abrigar.
Um dia, talvez por se ter dedicado mais do que devia, a quem apenas dela apenas se servia, reviu-se na aventura materna, como se esta fosse herança a que tivesse de prestar tributo. Sorte a sua, não ter tido fruto desse seu caso. Que haveria de frutificar de outro modo, confrontando-a consigo própria e com um destino que ela decidiu havia de ser diferente.
Pegou nos poucos papeis que a mãe lhe deixara e partiu a procurar as suas origens. Não foi tarefa fácil, porque ninguém lha queria facilitar. Todavia, com o pouco que sabia, meteu-se a caminho do Brasil, ao inesperado confronto com seu pai. 
Encontrou-o, moribundo num hospital paulista. Mas haviam de abraçar-se trinta e sete anos depois.
Hoje Rosa já não é Costa. Nem fadista. É socialite e chama-se Gaby. Gaby Dirceu, dona da maior rede de drogarias do país irmão. Nem é, mais, a filha de pai desconhecido...

Helena

sábado, 3 de novembro de 2012

Um Domingo em Paris

Era Domingo em Paris. Como sempre acontecia quando Joana viajava em trabalho e tinha reuniões à segunda feira, aproveitava para partir ao sábado e descansar naquela que era, para si, a primeira cidade depois de Lisboa. Ambas tinham uma luz especial e o céu rosado do Outono na capital francesa era algo que Joana não dispensava quando lá ia.
Chegara na véspera, largara a mala no hotel e, como sempre acontecia, saíra de imediato para se perder na multidão que circulava nas ruas num fim de semana de sol.
Jantara num pequeno bistrot perto dos Campos Elísios, fora ao cinema e, ao fim da noite, antes de se recolher, ainda tomara um chocolate quente numa esplanada, onde um jovem tocava violino.
Acordara tarde no dia seguinte, que estava belíssimo. Decidiu caminhar pelas ruas a apanhar o sol no rosto. A certa altura apeteceu-lhe parar num drugstore para comprar umas revistas e se sentar a tomar um café.
Dirigiu-se à grande mesa quadrada onde estavam expostas as publicações mais recentes. De repente sentiu que estava a ser observada, mas o grupo que rodeava a mesa não lhe permitiu ver com discrição quem o fazia. Esperou um pouco e escolheu uma revista de cinema. Quando estendeu a mão para a apanhar, alguém colocou outra mão sobre a sua. Entre o encontro de olhares que se seguiram mediaram segundos, sem que qualquer gesto fosse feito. 
Quando finalmente Joana largou a revista, não sabia bem o que fazer. Só conseguiu sentar-se na mesa do café e ficar parada. Uns minutos depois tinha-a na sua mesa. E com ela, a mão de que antes se libertara, que agora pegava na sua. 
Foi um cálido encontro numa tarde de Domingo em Paris...

HSC

sábado, 15 de setembro de 2012

Momentos especiais

Há na vida de cada um de nós momentos especiais. Não têm que corresponder a datas de tradição familiar, nem a acontecimentos particulares.
Era sábado quando decidi ir até Campo de Ourique, local onde habitualmente realizo as compras de fim de semana. Ao passar junto à Basílica apeteceu-me entrar. Não porque fosse ocasião de missa ou que tivesse algum assunto para tratar. Nada disso. Foi gesto impulsivo, uma necessidade do momento, que poderá até ter sido ditada por uma semana particularmente agitada.
Arrumei o carro e entrei. A igreja não tinha mais do que seis pessoas e a luz que entrava através da cúpula e dos vitrais tinha algo fora do comum.
Sentei-me junto do altar de S. José, o meu tardio padrinho de baptismo - é verdade, tinha vinte anos quando decidi faze-lo - e ali fiquei imóvel por um bom bocado. Absolutamente entregue ao momento, sem orar, sem me mexer.
Teriam passado uns quinze minutos desta estática em que me encontrava quando uma criança cor de café com leite se aproximou de mim, se sentou, encostou a cabeça ao meu regaço e me disse "leva-me para tua casa". 
Surpreendida perguntei-lhe pelos pais e como havia ido ali parar. Levou tempo a que lhe ouvisse a resposta "morreram, leva-me para tua casa". Tentava ainda perceber alguma coisa do que se passava na vida da miúda, quando vejo uma autêntica matrona dirigir-se para o local onde nos encontrávamos, pegar na garota e leva-la por um braço para fora dali.
Incomodada peguei na carteira e saí para lhe perguntar que tipo de laços a ligavam à criança. Nada. Num ápice tinham desaparecido ambas...

Helena  

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Diálogo improvável

- Toma cuidado Eva. Qualquer dia rebenta-te a batata quente nas mãos.
- Não. Ele só está mesmo à espera de arranjar uma casa, porque já vivem em quartos separados.
- Todos dizem isso. E tu que és amiga do casal bem sabes que eles aparentam estar bem. Então ele está todo carinhoso com a Ivone só para gente ver? E tu aguentas essa situação há mais de seis meses? Ainda se encontram naquela pensão miserável com água correntes quentes e frias, que fica ali para os lados da Praça da Alegria?
- Ainda. Aí, pelo menos, não corremos riscos de encontrar gente conhecida.
- Isso é o que tu pensas. Corres é o risco de apanhar alguma doença...Mas ouve lá, se o Jorge agora até ganha bem, porque é que ele não te leva para um hotel?
- Está melhor, de facto. Mas não é rico...
- Não? Mas ele não é deputado?
- É. Mas é de esquerda. E esses ganham menos.
- O quê? Estás doida? Os deputados ganham todos a mesma coisa.
- Mas parece que eles têm de ajudar o partido e dar alguma coisa do que têm, ou do que ganham. Não sei bem!
- Ah, sim?
- É verdade. É o que ele me diz. E o Jorge não me mente.
- Então porque é que ele não lhes dá a Ivone, que é o que ele tem de melhor?!

Helena

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Aprendizagem...

Há quem diga que ela era bipolar. Desde que perdera o rapaz da sua vida, que esta tendência começara. Mas não se julgue que a Isménia era tola ou que estas alternâncias de humor seriam formas de chamar a atenção dos outros. Não senhor, porque ela sempre fora rapariga equilibrada. Mais dada a tristezas, é verdade, do que a alegrias. Mas isso, todos sabemos, está na alma de muitas portuguesas que, pese embora não cantem fado, não deixam de lhe glorificar com o exemplo, as contrariedades da vida.
Todavia, quando conheceu o Tobias, tudo se modificou. O rapaz, filho de emigrantes e já nascido em França, tinha um modo de falar e de olhar as pequenas da terra, que as deixava enfeitiçadas. Mas foi na Isménia que ele encalhou, talvez, quem sabe, porque o tipo dela, loira e de olho azul, lhe lembrava a Adele, a francesa com quem ele se iniciara nas lides sexuais e que tinha uma boa dezena de anos a mais do que ele...
Assim, aquelas "vacancias", como ele próprio dizia, foram uma forma de ter uma Adele da sua idade, na sua terra. E foram para Isménia a descoberta de algo que não conhecia. 
Primeiro, a medo, quase julgou que "aquilo" a matava. Logo depois, passou a gostar e, finalmente, o cozinhado virou gourmet de alta qualidade...e em tal quantidade que o pobre Tobias parecia ter olheiras desde a nascença.
As férias acabaram e o jovem voltou à pátria. Porém, Adele parecia-lhe, agora, um pãozinho sem sal, made in France. O seu iniciado só queria dar-lhe lições de como fazer melhor, o que ela antes julgara fazer muito bem . 
Isménia tornou-se uma sex symbol na sua terra. E aprendeu a tirar partido disso. Primeiro foi o Presidente da Junta de Freguesia. Depois o Presidente da Distrital, que a trouxe para a cidade. Dali veio para a capital fazer trabalho no partido.
Trabalhou tanto que encantou um futuro deputado. Que acabou por se casar com ela. Mas a rapariga aprendeu que na política, o melhor é mandar. Por isso "despachou" o deputado e agora é ela a candidata. E consta que ambiciona chegar a lider parlamentar.

Helena

sábado, 11 de agosto de 2012

Também acontece



Eram cinco irmãos tão diferentes como os dedos da sua mão. Era isto que Olímpia dizia  quando se referia aos filhos.
A primeira, Adozinda, fora fruto de um parto complicado e vira sempre a sua vida como a consequência directa desse facto. O segundo, Francisco de seu nome, havia de ser o contrário. Parto fácil e rápido tornaram-no um rapaz despachado, alegre e com gosto pela vida. A terceira, Floripes, viu a luz do dia antes de tempo e, quem sabe, por causa disso, fora sempre frágil e assustadiça, como que a pedir desculpa ao mundo por se ter adiantado. O quarto, Adriano, era um rapagão que ia pondo a vida da mãe em risco mal soltou o primeiro gemido. Havia de continuar, vida fora a inquieta-la porque escolhera o boxe como carreira e nunca se sabia em que estado voltava para casa. A última, Felismina  já nascida fora de tempo, foi contudo aquela que menos trabalhos deu. Era uma criança risonha e feliz.
Todos eles tinham paternidade diversificada. Mas isso não impediu que surgisse o sétimo elemento desta família, o Gervásio, que se apaixonara por esta mãe de família e, para a ter consigo, acabou levando o pacote todo, ou seja o clã completo, que acabaria por ajudar a criar.
Os anos passaram, a Olímpia já não era nova, e os tempos haviam-na ensinado a ser egoísta  Assim, cansada de ser mãe a tempo inteiro, quando chegou a altura decidiu juntar-se, de novo, ao pai da última filha, deixando contudo a Gervásio, os filhos que ele ajudara a criar.
E este não só aceitou a incumbência como exigiu dar-lhes um nome, que eles não tinham. O quinteto perdeu a mãe biológica, mas ganhou um pai adoptivo. Ainda há histórias de homens bons que casam com mulheres egoístas e que têm finais felizes...

Helena

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Cinquenta anos...


Alexandre sempre se sentira atraído por mulheres mais velhas. E que fossem inteligentes. Apesar disso, casara com uma normalíssima colega de Faculdade que, em dez anos de união lhe dera uma filha.
Ambos inexperientes, perto do fim da década, deram-se conta que nada do que tinham, afinal, os satisfazia. 
Alexandre estava consciente da usura conjugal que nenhum soubera evitar e decidiu separar-se. Lígia ainda reagiu, estrebuchou, mas acabou por aceitar o divórcio.
E, embora muito ligado à filha de quatro anos, que ficara a viver com a mãe, Alexandre sentia-se aliviado, livre de algo que estava a tirar-lhe a alegria.
Mudou também de emprego e foi fazer aquilo de que gostava numa empresa que lhe estava a dar o seu real valor. E, se não fossem as saudades da garota arriscaria dizer que era feliz.
Um dia, no local de trabalho encontrou uma cara nova numa mulher que já o não era, se é que cinquenta anos, se pode definir como sendo uma idade madura... Vê-la e apaixonar-se não foi difícil.
Cristina era a madurez esplendorosa. Bonita, inteligente,culta, segura de si e divorciada. Enfim um terramoto de liberdade na vida daquele homem pouco experiente.
De repente, a única coisa que Alexandre desejava era ter aquela mulher toda para ele, sem sequer se perguntar se teria arcaboiço pessoal para aguentar o que essa exclusividade representaria.
Para Cristina ele era um jovem de trinta e sete anos que ela presumia ter pouquíssima experiência, mas que prometia rápida aprendizagem... Logo, não lhe causou qualquer apreensão dar "lastro" ao pretendente.
Este, de facto, precisava de rodagem, de alguém vivido que o ensinasse.
Depois de um ano de ligação mais ou menos clandestina, Alexandre queria casar e Cristina não viu nisso qualquer inconveniente, porque quando o prazo de validade seu, dele ou de ambos acabasse, ela partiria para outra,
Foram casados treze anos... Depois, ele queria conserva-la, mas ter acesso a carne mais jovem. Ela não quis. Separaram-se.
Anos mais tarde havia de voltar a procura-la, infeliz. Mas esperançado de que Cristina o aceitasse. Só que ela descobrira o prazer de ter um amor da sua idade...

Helena

terça-feira, 3 de julho de 2012

Filosofia de fim de semana


Às vezes Joana tem dúvidas. Do que foi a sua vida, do que de si entregou aos outros, do que os outros lhe entregaram a si. Olha para trás e, em certos dias tudo lhe parece certo. Noutros, menos segura, tem ideia de que a sua existência foi um puro erro de casting.
Em pequena era tímida. Em jovem afirmou-se. Em adulta foi sedutora. E agora, nem nova nem velha, não sabe quem é.
É a vida, dizem-lhe. Mas é a minha vida, responde. Sou eu que preciso de saber se é verdade quem penso que fui e que preciso de saber quem sou, na esperança de ainda poder perceber quem serei. Porque neste momento é só isso que importa a todos: saber quem se será.
Melhor ainda, saber se poderemos ser quem desejaríamos. Mas nem isso com precisão Joana sabe.
Lembra prazeres e alegrias, lágrimas e desgostos. Mas para que é que isso lhe serve, na definição de quem virá a ser? De nada. Nem pistas dá, porque, afinal, ela até já foi bastantes pessoas. 
E será que importa assim tanto saber quem poderemos ser? Importa sim, diz-lhe o seu lado moralista. Importa nada, diz-lhe o outro, o eu rebelde.
Joana só tem estas angústias ao fim de semana. Nos dias úteis não tem tempo. Sabe sempre quem é e quem será. Decididamente, o mais certo seria acabar com o sábado e o domingo...

Helena

domingo, 1 de julho de 2012

Vinte anos depois...


Ele insistia, por telefone, que precisava de a ver. Ela, de forma polida, ia-se esquivando, por entender que, ao fim de vinte anos de divórcio sem filhos, pouco ou nada haveria para dizer.
Elsa separara-se porque, em certa altura, se sentira a mais naquele casamento. Colocado perante a situação, Marcos não negou. Mas também não afirmou que pretendesse divorciar-se. Nada invulgar, convenhamos. Ele apenas gostava de duas mulheres. Realmente, embora de forma diversa. E se nenhuma delas levantasse a questão, ele não a levantaria.
Mas Elsa, que era inteligente, percebera. E, Amália que nunca desejara ser segunda, viu ali a chance para obter o que lhe faltava. Face à situação, o divórcio foi o caminho.
Elsa sofreu o seu maior desgosto e sentia-se culpada quando o colocava acima do que sentira quando perdera os pais. Havia, mais tarde, de obter a sua pequena vingança, quando ao fim de quatro anos daquela amargura, aceitara ser sua amante.
Hoje recorda esse período de um ano, como um dos melhores da sua vida. Acabaria por lhe pôr fim, quando percebeu que aquele homem  deixara de representar o papel de marido tão chorado. Coisas mesmo do destino.
Passaram vinte anos, que aqui ou ali, foram entrecortados por um telefonema de parabéns na data do aniversário de cada um. Nada mais.
Perante a insistência no encontro, Elsa não teve como rejeitar mais e acabou por aceitar o tal convite para jantar.
Mas vinte anos é muito tempo. Demasiado, num caso destes. Elsa não reconheceu Marcos à sua porta. Não queria acreditar que estava ali, alguém com quem vivera uma dúzia de anos.
O jantar tinha um fito. O tal abraço urgente trazia um nó na ponta. Mas Elsa não se importou, quando percebeu que afinal, aqueles vinte anos deixaram de ter qualquer valor no campo sentimental.
Ficou a amizade? Talvez. Mas ténue e sem qualquer hipótese de ser alimentada. Portanto, quase morta...

Helena 

Amizade colorida...


Ela não sabia bem o que se tinha passado entre eles. Mas hoje, à distância de uma meia dúzia de anos, pensa que terá sido o que, agora,  podemos classificar de colorida. 
Ele um jovem a entrar nos quarenta e a atravessar um período de insatisfação familiar - acontece a todos e quando não acontece, é melhor desconfiar -, ela na ressaca de uma relação mais ou menos poética, mas como quase todas as do género, um pouco irrealista. 
Um dia encontraram-se. Ela em Lisboa ele no Algarve, com uma distância de 200 Km entre eles. O flash pareceu-lhe mútuo e imediato.
A internet tem destes súbitos amores e assim, permitiram-se, um ao outro, fazer o "transfer" das respectivas tristezas, dando-se mutuamente uma amizade com laivos de algo mais, que não fora concretizado. 
A Lúcia tê-lo-á mitificado e o Pedro terá sentido nela o colo de que, no momento, até poderia precisar. E assim caminharam vários meses pontuados de encontros felizes, mas sem envolvimento físico. Sentiam-se bem assim.
Ela, sem se dar conta, foi expandindo o que sentia por Pedro. Este, ao contrário, foi-se reequilibrando e percebendo que na vida, familiar ou profissional, todos temos altos e baixos. Resumindo, ao que agora lhe parece, ela apaixonando-se e o Pedro libertando-se e tentando ficar o bom amigo.
Quando isto aconteceu houve, inevitavelmente, num dos lados, uma revolta . Sobretudo o dela, que sentiu nada haver ganho, em troca do muito que oferecera de solidariedade, de atenção, enfim de envolvência pessoal. 
As formas de reacção individual são múltiplas. Pedro continuou a sua vida e ela sentiu a dela esmorecer, sobretudo num período em que teve muitos outros eventos nefastos. 
Lúcia tinha vontade de se vingar. Mas nem sabia bem de quê. Se daquilo que havia recebido ou se daquilo que, afinal, não recebera. 
O tempo passou e a revolta, depois de aumentar, começou a diminuir. 
Um dia, Lúcia deu-se conta de que ultrapassara a crise. É que tinha começado a dedicar-se ao que verdadeiramente lhe devia ter sempre interessado na vida: ela própria. Até para, mais tarde, poder fazer, descomprometida, a sua própria análise. 
Hoje, sim, chegara a hora, de perceber que se não deve insistir em ser amigo de quem não quer ser nosso amigo, porque quer algo mais. 
Foi uma pausa longa. Só o tempo é bom conselheiro nestas matérias. 
E se a amizade, que no passado, pareceu uni-los, tiver pés para andar, ela acabará por voltar, quando já não possa ser mais do que isso!

Helena


quinta-feira, 24 de maio de 2012

A viúva


A condessa já tinha morto três maridos e herdado as respectivas fortunas que iam sempre engrossando o seu património. Os filhos nem piavam perante tanto matrimónio e viuvez porque, no fundo era a eventual herança que ia engrossando.
Aquilo que na realidade os preocupava é que mãe fosse escolhendo maridos cada vez mais novos e em que o risco de serem eles, os eventuais usufrutuários dos bens, se tornava cada vez maior.
A certa altura Cândida - era esse o seu nome - reuniu a família para lhe dar conta de que tinha novo pretendente. Novo, de facto, em toda a acepção da palavra, porque o jovem conseguia ser de uma geração mais recente que a do seu filho caçula.
A reunião foi agitadíssima. Os filhos resolveram lembrar à mãe que os seus sessenta e nove anos eram pouco compatíveis com os trinta do futuro noivo. Nada a demoveu. E nada serenou, é evidente, os descendentes. Nem a garantia, dada por Ernesto - que tinha tanto património como Cândida - de assinar qualquer documento válido, no qual declararia abdicar de tudo o que fosse da futura mulher, sem lhe pedir declaração idêntica.
Chegou o dia do casamento, depois de grandes discórdias quanto ao fato que a mãe devia levar. O acordo veio lá se fechou num sóbrio tailleur café com leite muito claro.
Terminada a cerimónia os noivos foram para lua de mel num belo carro de desportivo que o noivo dera de presente à mulher. Enfim, andaram por essa Europa, cabeça ao vento, mais de um mês. E quando voltaram, a boa disposição era evidente.
Tudo corria bem entre os recém casados. Até que um jantar de ostras haveria de ditar a sorte de Ernesto, que não sobreviveu à força do envenenamento.
De novo Cândida estava viúva. E, outra vez, mais rica porque Ernesto, feliz e sem filhos, a instituíra sua herdeira universal!
Agora, surpresa das surpresas, são os filhos que querem que a mãe termine a sentida viuvez...

Helena

segunda-feira, 21 de maio de 2012

A cor de chocolate


Conheceram-se na escola primária. Ela loira, olhos claros, despachada e com vontade bem firmada. Ele moreno, olho escuro, trigueiro, pacato.
Eram ambos bons alunos e interessados em aprender. 
A família do Tomás viera de África a quando da descolonização. A da Deolinda era natural do Algarve.  Foi aqui que as duas famílias se haviam de encontrar e de se tornarem amigas.
Apesar dessa amizade familiar, nada os destinaria um ao outro, tão diferentes eram as suas formas de ver o mundo. Mas o facto de terem feito escolhas curriculares semelhantes levou a que os seus destinos se cruzassem. Da escola passaram ao liceu - sim, nesta época ainda havia essa instituição, hoje ultrapassada pela Escola Secundária -, e deste rumaram à Universidade. Um e outro escolheriam medicina.
Foi nesta rota que a relação se estreitou e decisão de unirem futuros se começou a esboçar. Com efeito, no último ano, resolveram fazer economias e juntarem-se na mesma casa. Aliavam, assim, o útil da partilha de habitação e do encaixe da renda, ao agradável da partilha dos corpos. 
Podiam, até, dar-se ao luxo de perceberem se, perante as diferenças, o que os unia era mais forte. E foi-o, de facto.
A relação manteve-se durante uns anos, mais concretamente, até terem garantido o seu trabalho. Foi quando pensaram dar outra dimensão à família que já formavam, ensaiando uma nova realidade, a de pais.
A gravidez de Deolinda viria, então, fechar um ciclo e dar início a um outro.
Tudo parecia correr bem. O lance fatal começou com o nascimento da criança que, para espanto de todos, era cor de chocolate.
Foi um alvoroço de desconfianças. Como era isto possível, perguntava-se a família de Tomás, sendo os pais de raça branca? Teria havido troca de crianças, chegaram a admitir.
E, por fim, chegou a questão mais grave, aquela que punha em causa a seriedade de Deolinda. Naquele momento, naquela altura, só havia uma forma de agir. Fazer testes e perceber que mulher era, afinal, a mãe da criança. Ou, dito de outro modo, averiguar se o filho era ou não, de Tomás.
Fizeram-se os exames necessários. Não havia qualquer dúvida sobre a sua paternidade. O que não se sabia, é que, afinal, ambos tinham tido trisavós de cor...
Porém, mal estava feito. A confiança fora quebrada e nada do que soube posteriormente foi suficiente para a restabelecer. Afinal as leis de Mendel e as probabilidades que a mesma estabelece continuam, para muita gente, a ser desconhecidas...

Helena

sexta-feira, 18 de maio de 2012

A terra de ninguém


Era um magricela de quem todos se riam na escola. Tinha um olhar triste e adivinhava-se que em casa a fartura não devia ser muita.
João nascera numa família muito modesta onde nem pai nem mãe foram, alguma vez, alfabetizados. Talvez por isso, sempre olharam com grande desconfiança para aquela ambição de saber que o filho revelava. A bem dizer nem a compreendiam. E até consideravam que a sua obrigação era ajudar os pais na sua labuta diária e não ser o rato de biblioteca que na realidade era.
Um dia receberam uma carta da escola pedindo-lhes que autorizassem o João a participar de um concurso, cujo prémio era uma bolsa de estudos universitários em Inglaterra. Disseram de imediato que não, que não havia dinheiro para esse tipo de despesas.
Mas a bolsa pagava tudo, caso ele a ganhasse. E ganhou.
Foi um tempo essencial na vida do João que, durante cinco anos, não mais veio a Portugal. Excelente aluno teve, de imediato, uma oferta de emprego que aceitou sem reservas.
E, ao fim de um ano de trabalho, já com mais folga económica, veio ver os pais. A sua intenção era comprar-lhes uma casa melhor e proporcionar-lhes um fim de vida mais folgado.
Mas o encontro foi muito traumatizante. O jovem tornara-se um homem bem constituído e com uma bela presença. Mas o seu mundo já não era  o dos pais, nem estes conseguiam reconhecer naquele senhor o rapaz que os deixara com dezasseis anos. A conversa não fluía e o acanhamento dos três era flagrante
De retorno a Londres, João tinha a noção de que já não era dali, da terra onde nascera. Mas sabia, também, que tão pouco pertencia à terra, ao país onde vivia há cerca de sete anos. 
Há casos e momentos assim, em que sentimos que apenas pertencemos a uma terra de ninguém...

Helena

terça-feira, 17 de abril de 2012

Sinais


Andava arredado, como se quisesse fugir dela. Chegava tarde, levantava-se com as galinhas e às refeições mantinha-se mudo.
Ela não percebia e desfazia-se em ternuras e atenções, admitindo que seria culpa sua. De quê, não sabia. Nem sequer admitia a existência de outra mulher. Pensava nos dois filhos, tentava comunicar, mas a barreira era intransponível. Marcelo não estava pura e simplesmente interessado em falar sobre o assunto.
O ambiente tornara-se insustentável e, no limite, Elsa decidiu fazer as malas, pegar nos miúdos e sair. Sem dizer para onde ia, aproveitando as férias escolares de Verão. Rumou ao Norte, arranjou casa e trabalho. Até que sentiu ser chegada a altura de procurar um advogado para se divorciar.
Foi quando, finalmente, percebeu as razões do marido. Nada tinha contra ela, nem se queixava de coisa alguma. Ela apenas pecara por omissão, por não ser a pessoa que ele esperava que ela fosse. Fora ele que se enganara sobre a pessoa com quem casara e, por isso, sentia goradas as suas expectativas. E não queria uma vida sem retorno para si.
Há, de facto, vidas assim, em que um nunca sabe ler os sinais do outro que, por sua vez, espera sempre não ser ele próprio a ter de fazer o corte. Para isso basta-lhe ir ferindo lentamente...

Helena

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Uma chávena de café...

Ele esperava-a no quarto do motel. Como todas as quintas feiras dos cinco últimos anos. Despira apenas o casaco e atirara-se para cima da cama.
Com efeito, talvez nem fosse preciso despir mais nada, porque ele já tinha o discurso todo preparado. Mal ela chegasse teria que lhe refrear os abraços e os beijos para conseguir espaço de diálogo. Bom, diálogo não, pensou. Ele apenas queria ter um monólogo... mas não ia ser fácil!
O tempo foi correndo, o discurso de Miguel foi-se aprimorando e os gins com que se foi animando iam-se acumulando e o nosso protagonista talvez por efeito da espera tranquila, talvez por efeito da bebida, deu-se conta de que haviam passado duas horas e de Marta ... nem sinal.
Um pouco confuso ligou para a recepção e pediu um café duplo. Minutos decorridos um discreto bater de porta. Enfim, pensou!
Ao abrir depara-se-lhe um empregado com uma bandeja na qual vinha uma chávena com o líquido fumegante e um envelope, que acabara de ser entregue.
Miguel pousou tudo na mesa e abriu o sobrescrito. Duas linhas apenas continha o cartão. "Foi bom quase sempre. Deixou de o ser há um ano. Caso dentro de um mês".
O café esperava por ele. O discurso que havia preparado, também. Afinal eram mesmo as únicas coisas que tinha à espera... além da mulher e dos dois filhos lá em casa!

Helena

segunda-feira, 2 de abril de 2012

A intimidade dos pais

Nunca conhecemos bem os nossos pais, pensava Deolinda depois de ter arrumado a última gaveta dos objectos pessoais daquele que lhe dera a vida. No meio da sua tristeza pela perda que acabara de sofrer, também sentia um misto de pasmo e de irritação pelo que, sem querer, lhe tinha vindo parar às mãos.

Os pais haviam-se divorciado quando eles eram pequenos. Deolinda não tinha qualquer lembrança deles enquanto casal. O irmão, Marcelo, ao contrário lembrava-se bem e havia sofrido muito com a separação paterna. Ele ficara com o pai e a irmã ficara com a mãe. Mais tarde, quando a mãe se voltou a casar e teve que ir com o marido para o estrangeiro, haviam de voltar a juntar-se na casa paterna. De facto, por causa dos estudos, ambos ficaram, nessa altura, com o pai.

Marcelo, inteligentemente, delegara na irmã tudo o que dizia respeito à divisão dos bens paternos, seguro que estava, de que Deolinda jamais o enganaria. E também se libertava, está de ver, de uma série de trabalhos que a morte dos próximos sempre acaba por trazer àqueles que ficam vivos.

Tudo correra bem na constituição dos lotes para dividir.

O problema surgiu quando foi necessário chegar às coisas que o progenitor guardara, sem se perceber bem porquê, e que respeitavam à sua intimidade. Acontece com frequência àqueles que parece que nunca estão preparados para morrer.

Naquela gaveta havia de tudo. Postais, fotos, cartas, pautas musicais, bilhetes de espectáculos, um caracol de cabelo, enfim, um mundo que Deolinda nem sequer julga pudesse caber na imagem contida que tinha do pai. E, num grupo aparte, encontravam-se três embrulhos. Um constituído por cartas que a mãe escrevera ao marido; outro por cartas que a avó enviara ao filho e dois cadernos com histórias eróticas, cuja letra não deixava qualquer dúvida sobre o autor das mesmas. Finalmente, um diário com fechadura.

Deolinda nem queria acreditar que aquele pai severo, exigente e até seco, pudesse ser o autor daquilo que estava ali à sua vista. Hesitou em compartilhar com Marcelo o que descobrira. Depois decidiu que não o faria. Iria queimar tudo.

Mas não resistiu a ler uma carta escrita pela mãe. Não conseguiu acabá-la. Era demasiado íntima. Voltou a dar um laço na fita que desatara e resolveu que aquelas iriam para as mãos de quem as escrevera.

Faria a entrega no dia seguinte, pensou. Mas dormiu mal nessa noite. E, ao fim da manhã, dirigiu-se à casa materna e entregou à autora as ditas epístolas.

- Leste alguma?

- Li uma mãe. Mas nem sequer a acabei.

- Fizeste mal Deolinda. A intimidade dos pais só a eles diz respeito!

- Tem razão mãe.

- Então faz o que o teu Pai devia ter feito. Desfaz-te, em vida, do passado que morreu!

Helena

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O tempo não volta atrás

Às vezes a vida prega-nos partidas. Conheciam-se há anos. Desde a escola primária. Tudo gente fina, daquela que por educação foi habituada a conter-se, a esconder as emoções. Gente que não dá beijos e abraços, porque esse tipo de manifestações não são próprias do meio em que cresceram. Gente que convive, mas não se entrega. Foi neste enquadramento que Gabriela e Armando foram crescendo.
A revolução dos cravos trouxe-lhes, de repente, uma nova realidade. Os bens que tinham, foram perdidos, as propriedades ocupadas, e a família, aos poucos, foi-se desfazendo. Uns, porque se adaptaram aos novos tempos. Outros, porque jamais deixaram de suspirar pelos antigos.
O pouco que sobrou foi sendo discretamente vendido pelos pais para manter um mínimo abaixo do qual sentiam que já nada mais lhes podia acontecer. A casa familiar manteve-se, mas foi transformada numa pequena pensão a que pomposamente passaram a dar o nome de de turismo de habitação.
Gabriela estava ao comando dos quartos e Armando à mesa e na cozinha. Os estudos universitários dos irmãos foram à vida. O clã manteve-se unido até que os jovens atingiram a maioridade e decidiram rumar à capital, para viver a sua vida.
O rapaz encaminhou-se para o exército. A rapariga virou empregada de balcão. Do primeiro ninguém mais soube, perdido nas intrigas políticas a que aderira. Gabriela, essa, nunca se conformou com as perdas que tivera. As do património e as do estatuto social.
Um pouco perdida, já não pertencia ao berço em que nascera, mas continuava sem ser capaz de se integrar no meio do qual fora forçada a fazer parte, uma baixa burguesia, que pouco ou nada tinha que ver com ela, para além da comum necessidade de sobreviver. E, se para alguns, a ânsia era experimentar outro nível de vida, para Gabriela, a ambição era a vingança de retornar à antiga existência.
Só que o presente raramente volta atrás. Os colegas de trabalho melhoraram, de facto, os seus padrões e acederam a um mundo que antes lhes era negado. Para Gabriela era mais difícil, porque jamais voltaria a ser quem havia sido. Pela simples circunstância de que, apesar do o tipo de vida que tivera, poder voltar a existir, as pessoas já não eram as mesmas, nem pensavam do mesmo modo.
Talvez tenha sido essa ambição de retorno ao passado, que a levou a aceitar a corte de um homem mais velho e rico, que se encantou com o que adivinhava haver dentro dela. E lhe fez todas as vontades.
A nossa heroína voltou, assim, à antiga casa paterna que recuperou por bom preço e que voltou ao que era antes da revolução. Só que já nada tinha o mesmo sabor de antigamente. Nem os amigos nem Gabriela ficaram incólumes ao que se passara. Vivia bem, tinha dinheiro e quem a servisse. Tudo como antes. Ou, até, talvez, melhor. Mas já nada sabia ao mesmo...
Quando o marido morreu a sua grande preocupação foi recuperar o irmão. O que não aconteceu porque ele nunca aceitou que ela tivesse readquirido a casa paterna e voltasse aos hábitos anteriores à revolução a que ele aderira.
As revoluções quando não são silenciosas têm por vezes estes efeitos fracturantes para a sociedade e para as famílias que a compõem. E tem que se aceitar que assim seja, se esse for o preço a pagar pela evolução.
O que não quer dizer que uns não o sintam como uma factura de valor muito alto...

Helena

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Amor amargo


Nunca se teriam encontrado se não fosse o trabalho. Ele vindo de África, ela indo a África ver a família. Um, oriundo de Angola. Outra, visitando os seus em Moçambique.
Ambos juristas, de gerações bem diferentes, mas da mesma Universidade. Ele provindo de gente humilde. Ela filha de uma média burguesia alta.
Quis a sorte, corporizada na revolução dos cravos, que o destino de ambos se cruzasse na casa em que os dois serviam.
Joana já lá estava. Frederico veio depois, na avalanche de retornados que o país tão bem recebeu. A sua entrada causou logo algum mau estar, porque o salário que iria perceber era superior ao dos restantes colegas. Mas ele não se assustou, aguentou o embate e acabou por ser aceite por quase todos que lhe haviam de, com o tempo, reconhecer competência.
Ambos casados, apaixonaram-se, por mor sabe-se lá bem de quê, visto que nada os aproximava. Ele encantou-se com a maturidade de uma mulher dez anos mais velha. Ela rendeu-se à ternura de um homem mais novo e ao fascínio que sabia exercer sobre ele. Fascínio que nunca, até hoje, acabou.
Depois do divórcio de cada um, casaram. Pareciam felizes e foram-no. Até que Gina apareceu e a tormenta começou.
Frederico gostaria de manter as duas mulheres. Gostava de ambas. Mas Joana não aguentou. E a história repetiu-se com mais outra separação e outro casamento.
Durante anos Joana sofreu, mas não se queixou. Frederico falava-lhe de quando em vez, mas ela não o atendia. E assim decorreram cinco anos.
Um dia o acaso juntou-os numa reunião de trabalho. Joana estava curada. Por isso até achou graça à corte do ex marido.
Aceitou-a e fez tudo para a manter. Foram amantes durante dois anos. Joana tinha a cabeça fria, mas o corpo quente. E sentia que agora estava em condições de medir forças com Gina, a concorrente.
Por fim, Frederico percebeu que ela era a mulher da vida dele e pediu-lhe para voltar. E voltou, seguro do amor dela.
Só que, no retorno a casa, não encontrou Joana. Mas encontrou uma carta com poucas palavras que lhe era dirigida. Apenas uma frase "foi bom, não foi? Mas acabou."

Helena

sábado, 28 de janeiro de 2012

O retrato de um homem sério


Deixem que me apresente. Sou um homem letrado que, ao longo da vida andou como os carroceis: umas vezes em baixo, outras lá em cima. Como todo o homem, tenho uma história. Irrisória, mas minha.
De profissão sou ladrão. Mas não de pechisbeques, de obras de arte, ou de peças de museu. Não. Sou um ladrão mais refinado. Roubo ideias.
Uns, como se sabe, especializaram-se em deitar mão ao que as pessoas têm, possuem. Eu apenas esbulho o que vai na mente de cada um.
Não é fácil esta arte, porque obriga a especialização e a estabelecer com o roubado fortes relações de amizade. Pelo menos até se perceber se ele tem ou não ideias. E obriga, igualmente, a uma forte cultura geral. Aliás, só posso ter esta refinada profissão, porque sou doutorado.
Se não vejamos. Para roubar a ideia de uma partitura, preciso saber música. Caso contrário corro o risco de me esforçar para obter algo que não passa de peça medíocre. E o que acabo de dizer, aplica-se, é evidente, a outras formas artísticas.
Durante anos fui engenheiro. Como tal apropriei-me de vários projectos de que os autores apenas fizeram esquissos. E tive bastantes alegrias.
Depois fui economista. O património ideológico adquirido por aqueles a quem roubei fez de mim banqueiro. Não terei sido um Madoff, mas não andei muito longe. Só que o país é pequeno e, ao fim de alguns meses, já era eu o roubado. Um prejuízo e tal.
É claro que também estive no desporto, onde roubei pouco, porque as ideias eram escassas, e as que valiam a pena, já não pertenciam ao país.
Como advogado fiz sucesso. Os estagiários tinham o conceito e eu desenvolvi-o sob nome próprio. Foi a minha rampa de lançamento para a política e para o enriquecimento.
Cheguei finalmente às grandes empresas. Públicas, claro. Aí já não precisava de roubar porque outros o faziam por mim.
Foi esta a minha carreira. Sou, hoje, um homem tido por sério. Como convém ao público retrato de quem, agora, se dedica a apoiar obras sociais.

Helena

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

O Cacilheiro


Não sabe o seu nome sequer. Quando ele tentou dizer-lho já o barco se preparava para partir e era tarde demais. Não sabe o que fazia naquele bote, àquela hora tardia. Possivelmente era embarcadiço.
Parece estranho este começo. Mas foi mesmo assim, de modo bizarro que tudo aconteceu. Vou contar-vos a história que, como podem intuir, é bastante fora do comum.
Deolinda tinha um mau casamento, um emprego sem interesse e poucos amigos. Não era pobre, mas também não era rica. Talvez remediada, como diria a minha avó. Remediada também na beleza. Mas rica na vontade de mudar de vida medíocre que levava.
Uma fim de tarde de primavera, com o sol ainda forte, resolveu sair do emprego mais cedo e atravessar o Tejo. Não que morasse na outra banda. Mas uma irreprimível vontade de olhar o mar, fez com que decidisse embarcar num destes modernos botes que fazem a travessia do rio.
Quando entrou, o homem que a tentou ajudar, também lhe acelerou o ritmo cardíaco. Pela farda deduziu-lhe a ocupação. E, pelo tempo que lhe guardou as mãos entre as suas, adivinhou-lhe o interesse.
Sentou-se em lugar propício ao contacto visual do fogoso tripulante. Mas ao perde-lo de vista ganhou-lhe a proximidade do contacto. Primeiro o corpo, lado a lado. Depois as mãos que discretamente iam lutando contra os abafos protectores. E, ao ouvido, as palavras de quem está mais afeiçoado às agruras do mar, do que às venturas e pruridos dum leito burguês.
A noite caía, as defesas de Deolinda também e as mãos do marujo continuavam a sua rota. Um prazer indizível e um mau caminho prometido. Ambos já debaixo de uma manta oportunamente posta à disposição de quem se quisesse proteger do bater do mar encrespado.
Foi no crucial momento que tudo prometia, que uma voz alterada rompeu o silêncio com um "homem ao mar", que pôs todos em alvoroço e obrigou o protagonista desta história a atirar-se à agua gelada, para salvar uma criatura, que afinal era mulher.
Depois, Deolinda não viu mais o salvador que, encharcado, se deve ter recolhido e abrigado do frio do cair da noite. Até que, já atracados no cais, lobrigou, numa pequena vigia, os seus gestos e lábios a tentarem dizer-lhe algo. Talvez o nome. Era o mais certo.
Mas o ruído dos motores do retorno não a deixaram perceber a sua voz...

Helena

sábado, 21 de janeiro de 2012

Amor não olha idade


Era velha. Sem o ser. Era-o na idade, no cartão de cidadão, nos netos que já tinha, na caminhada que fizera.
Mas era uma jovem na atenção com que olhava o mundo à sua volta, nas transformações por que passara, nas paixões que ainda despertava. Não, não eram paixões físicas, de posse ou de desejo. Eram paixões mais fundas, de encantamento, de dependência intelectual.
Teresa tinha sessenta anos biológicos. Mas o aspecto e a fogosidade de uma mulher de trinta, que já vivera o suficiente para destrinçar o que valia e o que não valia a pena. Era, enfim, e ainda, uma mulher de fascínio.
Foi assim que Alexandre a viu e foi por ela que se apaixonou. Entre ambos uma pequena diferença de catorze anos... Nada com que ambos parecessem incomodar-se.
Incomodada sim, ficou toda a família, quando Cecília os surpreendeu com a notícia de que tencionava casar-se. Tencionava e fe-lo mesmo.
Enquanto durou foi bom. Curiosamente foi essa diferença etária que fez com que se completassem. Ela mais madura, não cedendo à primeira dificuldade. Ele apoiando-se na força dela. Ambos querendo e desejando que aquilo que os unia saísse reforçado.
Algum sentiu medo? Nunca saberemos. O certo é que aquele enlace durou dezasseis bons anos e só terminou quando, inesperadamente, numa noite Alexandre morreu.
A lição que se pode tirar é que não vale a pena desistir de viver por medo da própria vida. Ou das suas convenções, o que vem dar ao mesmo...

Helena

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Retorno


Marília nascera em África. Tinha na pele a marca dessa liberdade. Tudo o que lhe limitasse o corpo, os movimentos, provocava nela uma dor imensa. Por isso foi feliz na terra rubra onde decorreram os seus primeiros anos de vida.
Mas a guerra viria a determinar o retorno dos pais a Portugal. E, de caminho, o seu primeiro contacto, infeliz, com um mundo que jamais seria o seu. Tinha nove anos quando tal aconteceu.
Seguiram-se anos de saudade, não mitigada, daquelas ruas onde se mexia à vontade e onde nunca a cor da pele dos seus amigos fizera qualquer diferença.
Faltava-lhe o ar, a imensidão do território, a cor fulva do céu e o cheiro. Sobretudo, o cheiro da terra, que ela não conseguiu, nunca, encontrar em qualquer dos lugares em que viveu. Que a família chamava de continente.
Os pais desapareceram, as velhas brigas que haviam determinado o seu retorno apaziguaram e Marília continuava trinta anos depois, a considerar que nem a Europa nem Portugal eram a sua casa. Decidiu, assim, retornar a África, convencida que só lá poderia ser feliz.
Mal pisou o chão do aeroporto sentiu a diferença. O cheiro era o mesmo, mas alguma coisa tinha mudado. Instalada no hotel a sensação repetiu-se, sem que ela soubesse explicar o que é que estava diferente.
Resolveu sair, misturar-se na multidão e voltar aos lugares da sua infância para aí poder, finalmente, encher de ar, daquele ar, os seus pulmões.
Foi um choque. Os sítios estavam lá, mas nada era igual.
Sentada frente ao mar Marília percebeu que construíra um sonho. Aquela já não era a sua terra. Era, apenas, o local onde passara a sua infância...

Helena

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Um grande amor


Não sei como nasceu este grande amor. Sei que foi através das palavras que o conheci. Só muito mais tarde lhe vi a cara numa foto de um velho jornal.
Não sei onde vive, se é casado ou solteiro, se tem ou não filhos. Sei o que vem na Wikipédia, o que é pouco e, possivelmente, falso. Mas nada disso interessa ou acrescenta alguma coisa ao que sinto por ele.
Um dia, há alguns anos, numa livraria, peguei num livro seu. Folheei-o porque o título me encantou. Página após página, fui sendo aliciada. Num repente, peguei-lhe, paguei-o e saí.
Cá fora levei-o junto ao peito, sentindo que o meu coração se agarrava aquelas letras. Caminhei devagar até ao carro, para apreciar melhor o seu pulsar.
Já sentada, peguei-lhe com cuidado. Olhei-o fixamente e comecei, de facto, a lê-lo. Muito devagar, mesmo muito. Primeiro em voz baixa, quase soletrando. Depois, depois num crescente de paixão, fui-o lendo com sonoridade aumentada, indiferente aos peões que passavam e estranhavam a minha figura.
Já passava das dez horas quando terminei a leitura. Era ele, o autor, o homem da minha vida, aquele que me dizia, por escrito, o que eu tanto sonhara que alguém, um dia, me dissesse de viva voz. Exactamente aquilo.
No dia seguinte, procurei outras obras suas. Que adquiri, com o mesmo encantamento. Nunca como até então alguém se infiltrara na minha vida daquele modo. Aquelas palavras circulavam agora no meu sangue, misturavam-se com as células da minha pele.
Eu encontrara, por fim, o mensageiro que havia de mudar por completo a minha existência!

Helena